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Qua, Jan

Grafiteiro de Mogi homenageia Rayane com arte no distrito onde ela morava: 'este caso tem muita coisa pra nos ensinar'

Flavio Nolasco grafitou o rosto da estudante Rayane Paulino, que foi assassinada após sair de festa em Mogi. — Foto: Flavio Nolasco/Arquivo Pessoal

Mogi das Cruzes

Rayane Paulino Alves, de 16 anos, foi assassinada após sair de festa em Mogi das Cruzes. Grafiteiro Flavio Nolasco, de 38 anos, desenhou a jovem no muro com o objetivo de chamar as pessoas para uma reflexão sobre a morte da jovem.

A imagem da estudante que comoveu o País nos últimos dias agora está registrada em um muro no distrito de César de Sousa, onde ela morava. Pelas mãos do grafiteiro Flavio Nolasco, de 28 anos, Rayane Paulino, assassinada após sair de uma festa em Mogi das Cruzes, foi desenhada com um sorriso característico dela.

Rayane ficou desaparecida por oito dias, depois de sair de uma rave em um sítio no limite entre Mogi das Cruzes e Guararema. O corpo dela foi encontrado no dia 28 de outubro.

Dois dias depois, foi preso o segurança Michel Flor da Silva, de 28 anos, que, segundo a polícia, confessou o crime.

A adolescente entrou no carro dele depois que o homem ofereceu uma carona da rodoviária de Guararema até a casa dela.

Suspeito de matar Rayane Paulino é preso em Mogi das Cruzes — Foto: Natan Lira/G1

Acostumado a desenhar mulheres a fim de destacar o valor delas na sociedade, o artista quis se manifestar sobre a violência que a jovem sofreu. "Este caso tem muita coisa a nos ensinar, principalmente que as pessoas são muito egoístas e que não dá para confiar em todo mundo nos dias de hoje", pontuou o artista.

Ele conta que morou por muitos anos na rua onde a família de Rayane mora, mas não teve muito contato com a jovem.

Ainda assim, o caso foi mais próximo dele porque a mãe e a esposa tinham contato com Rayane.

"Ninguém pensa que isso vai acontecer assim tão perto de nós. O caso da Rayane é daqueles que a gente só via na televisão, e, de repente, vê isso com uma vizinha. Com certeza causa um choque em todo mundo, por isso é necessário que haja uma reflexão", avalia.

Pensando nisso, surgiu no domingo (4) a ideia de eternizá-la em um desenho.

Dois dias depois, ela já ganhava forma em um dos locais mais movimentados do distrito, onde ocorre a feira livre aos domingos.

A parede já tinha inclusive sido liberada pelo proprietário do imóvel para ele grafitar, segundo Flavio.

"Durou cerca de quatro horas para eu deixar como está hoje. Ainda faltam alguns detalhes, principalmente a parte da camada de brilho por cima, para deixar a imagem dela alegre. Eu também estou pensando se faço algumas asas ao lado ou se desenho uma mandala. Ainda não sei ao certo", conta.

Rayane Paulino Alves, de 16 anos, desapareceu após festa em sítio de Mogi das Cruzes — Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Além de homenagear Rayane, Flavio diz que o papel da arte é sempre convidar as pessoas para a reflexão e que, neste caso, não poderia ser diferente.

Ele conta que desde o momento em que começou o desenho, as reações de quem passava pelo local eram as mais diversas, do riso ao choro.

"Eu peguei uma foto dela dando risada, mas cada pessoa que passar por lá vai ter um sentimento. Tem gente que passa e sorri, que chora, tem gente que foi amigo dela. É assim mesmo, cada um vê com o que tem na bagagem", diz.
No dia 1º de novembro, centenas de pessoas participaram do ato "Eu sou Rayane" para homenagear a jovem.

Ato 'Eu sou Rayane' levou centenas de pessoas à Avenida Cívica, em Mogi das Cruzes — Foto: Reprodução/TV Diário

Para alegrar
Flavio Nolasco gosta de grafitar rosto de pessoas. Ele diz que sempre buscou foto de quem conhece para grafitar.

A intenção é sempre de alegrar quem foi homenageado ali na arte. "Eu nem pergunto já para causar impacto mesmo, porque aí a pessoa ri, chora, me abraça", diz.

Mas há dois anos ele precisou grafitar uma menino que morreu na parede da escola em que ele estudava, em Suzano. "Teve um evento lá e eu estava pitando ainda e os parentes deles entravam e começavam a chorar. Foi emocionante mesmo. No final eles vieram me abraçar. Aquele forte mesmo. Não tenho nem palavras, não", destaca.

Flavio Nolasco grafitou a imagem de jovem que morreu em Suzano no muro da escola onde ele estudava. — Foto: Flavio Nolasco/Arquivo Pessoal

"Foi diferente porque eu sempre recebo um retorno da pessoa que pintei. Elas vêm e me agradecem, a gente conversa, tem gente que diz que estava precisando de um reconhecimento assim. Mas a arte é isso, é comunicar os diversos acontecimentos. Tem gente que vai pela música, eu fico com o grafite", pontuou.

O caso
Na noite de um sábado, 20 de outubro, Rayane Paulino foi a uma festa em um sítio de Mogi das Cruzes na companhia de mais duas amigas. O pai dela a deixou na casa de uma delas.

Para as amigas, Rayane teria dito que precisava ir embora mais cedo e que o pai iria buscá-la, mas isso não aconteceu. A família começou a espalhar cartazes com fotos da jovem diante da demora por notícias.

Após a polícia localizar o celular que pertencia à jovem na altura do km 170 da Rodovia Presidente Dutra, em Jacareí, cães farejadores fizeram buscas em uma região de mata no entorno do local. Os animais chegaram a indicar que o corpo da jovem poderia estar em um lago.

O corpo foi encontrado no dia 28 de outubro, oito dias após o desaparecimento dela, em uma outra área de mata, da Avenida Francisca Lerário, no bairro do Lambiri, em Guararema. A mãe da jovem, Marlene Maria Paulino Alves, reconheceu o corpo da filha, já no Instituto Médico Legal (IML) de Mogi das Cruzes, por causa do esmalte e de uma tornozeleira.

Apesar de as investigações estarem avançadas, a polícia só pode prender o segurança da rodoviária de Guararema, Michel Flor da Silva, de 28 anos, na noite de terça-feira. Segundo a polícia, o segurança confessou que matou a jovem depois de ter oferecido uma carona para ela. As investigações apontaram que houve estupro, mas homem alega que a relação sexual foi consensual e que depois a adolescente "surtou".

A jovem teria saído da festa e pegado carona com um motorista de aplicativo até a Rodoviária de Guararema.

De acordo com o delegado Rubens José Ângelo, Michel estava trabalhando na rodoviária e disse à polícia que, ao ver Rayane sozinha, se ofereceu para levá-la até a casa dela.

"Michel confessa cabalmente a prática do crime. Ele diz que encontra Rayane no terminal rodoviário de Guararema e ela estava meio cambaleando. Em dado momento ela sentou em um banco naquela rodoviária", disse o delegado. "Ele ofereceu uma carona, perguntou se ela estava bem. Ofereceu uma água e ela não aceitou. Ofereceu a jaqueta para ela se esquentar. Ela também não aceitou. Daí nesse momento ele oferece uma carona", continua o delegado.

Segundo Ângelo, no depoimento, Michel - que é capoeirista - afirmou que Rayane havia dito que queria curtir a noite e que ele propôs que fossem até uma balada, em Jacareí, e por isso mudaram o rumo.

"Em dado momento, no km 170 da Dutra, ele para às margens da rodovia e ali, segundo ele, ele mantém a conjunção carnal com ela", continua o delegado.

"Segundo a versão dele, que talvez seja isolada, ele disse que Rayane se arrependeu e teria dito o seguinte: 'olha o que você fez comigo, você me estuprou! Meu pai é polícia, ele vai te matar'. É uma versão dada pelo Michel, que é isolada. E, neste momento, Rayane teria dado um chute nele. E ele, seguidamente, aplicou um golpe mata-leão no pescoço de Rayane porque ele é lutador de artes marciais, capoeira, há mais de 12 anos, e ela desfaleceu", explica Ângelo.

O delegado acredita que a jovem foi violentada em Jacareí, onde o celular foi encontrado, perto do lago. Ainda de acordo com a polícia, Michel afirmou que, depois, levou Rayane para a área de mata em Guararema, onde o corpo foi encontrado. Ali, ele disse que asfixou a vítima usando um cadarço.

"Ele tem curso de primeiros socorros. Ele aferiu o pulso de Rayane, bem como a veia jugular do pescoço. Ela ainda estava viva. Ele vendo isso e temendo que fosse descoberto o estupro, ele pegou a bota de Rayane que estava no assoalho do banco de passageiro dianteiro, do lado de Rayane, pegou o cardarço, colocou em seu pescoço até matá-la."

O delegado Rubens José Ângelo descreve Michel como uma pessoa fria, calculista e sem arrependimento.

No período em que a jovem ficou desaparecida, o segurança chegou a comentar um post compartilhados para ajudar na localização da jovem. Para a polícia, ele tentava um álibi.

No dia 1º de novembro, um ato reuniu centenas de pessoas na Avenida Cívica. O objetivo foi homenagear a jovem e também discutir a violência contra a mulher, a união entre amigos e o diálogo entre pais e filhos.

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